Curadora brasileira negra de meia-idade coordenando montagem de exposição em museu.

O Peso Pode Voltar Após Interromper Ozempic, Wegovy ou Mounjaro?

O peso volta após interromper Ozempic, Wegovy ou Mounjaro?

Essa é uma das perguntas mais importantes surgidas com a popularização da semaglutida e da tirzepatida.

A resposta curta é:

sim, o reganho de peso pode acontecer — e os grandes estudos mostram que ele é frequente depois da interrupção.

Entretanto, essa resposta precisa de contexto.

Primeiramente, recuperar parte do peso não significa que todas as pessoas voltarão exatamente ao peso inicial.

Além disso, os estudos não mostram que quem interrompe inevitavelmente recupera 100% do que perdeu.

Por outro lado, também seria incorreto apresentar esses medicamentos como tratamentos curtos cujo efeito sobre o peso permanece automaticamente depois que a terapia termina.

Ensaios como STEP 1, STEP 4 e SURMOUNT-4 encontraram um padrão consistente: durante o tratamento, o peso diminui; quando o medicamento é retirado, parte importante desse efeito tende a desaparecer em muitos participantes.

Ainda assim, “o remédio parou e tudo voltou” é uma explicação incompleta.

Obesidade é uma condição crônica e envolve mecanismos biológicos que defendem o peso corporal.

Por isso, entender o reganho exige olhar para apetite, saciedade, gasto energético, metabolismo e duração do tratamento — e não apenas para força de vontade.

Manutenção do Peso na Menopausa
Manutenção de peso envolve biologia, ambiente, rotina e saúde — e não apenas decisões isoladas.

Índice

Antes de tudo: Ozempic, Wegovy e Mounjaro não são a mesma coisa

Embora os nomes apareçam frequentemente juntos, existem diferenças importantes.

Ozempic e Wegovy contêm semaglutida.

Entretanto, eles possuem indicações regulatórias diferentes.

No Brasil, Ozempic é registrado principalmente para o tratamento do diabetes tipo 2 e possui indicações adicionais relacionadas a complicações dessa doença.

Já Wegovy possui indicação específica para controle do peso em determinados adultos com obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades.

Mounjaro contém outra molécula

Mounjaro contém tirzepatida.

Ela atua sobre receptores de GIP e GLP-1.

No Brasil, a Anvisa aprovou Mounjaro também para controle crônico do peso em determinados adultos com obesidade ou sobrepeso associado a condições relacionadas ao peso.

Portanto, não devemos tratar semaglutida e tirzepatida como medicamentos idênticos.

E por que Ozempic aparece no título?

Porque muitas pessoas pesquisam Ozempic quando procuram informações sobre perda de peso.

Entretanto, a evidência clássica sobre retirada de semaglutida em obesidade vem principalmente de estudos que utilizaram a estratégia de tratamento com semaglutida desenvolvida para obesidade.

Assim, resultados de STEP 1 e STEP 4 não devem ser apresentados como se fossem estudos específicos de “parar Ozempic”.

O que aconteceu depois que a semaglutida foi interrompida no STEP 1?

O STEP 1 foi um grande ensaio sobre semaglutida em adultos com obesidade ou sobrepeso e pelo menos uma comorbidade relacionada ao peso, sem diabetes.

Posteriormente, pesquisadores acompanharam parte dos participantes depois que o tratamento terminou.

Essa extensão se tornou uma das pesquisas mais citadas sobre reganho de peso após semaglutida. [1]

Durante o tratamento, a redução foi expressiva

No grupo acompanhado na extensão, a redução média de peso havia sido de aproximadamente 17,3% ao final de 68 semanas com semaglutida.

Depois disso, o medicamento e a intervenção estruturada de estilo de vida do estudo foram interrompidos.

Os pesquisadores acompanharam essas pessoas por mais um ano.

Depois da retirada, parte importante voltou

Durante esse ano sem tratamento, os participantes recuperaram, em média, 11,6 pontos percentuais de peso corporal.

Isso correspondia a aproximadamente dois terços do peso que havia sido perdido.

Entretanto, eles ainda terminavam o acompanhamento, em média, abaixo do peso inicial.

Portanto, a frase correta não é:

“todo o peso voltou em um ano”.

A conclusão mais fiel é:

“em média, aproximadamente dois terços da redução anterior foram recuperados durante o primeiro ano após a retirada”.

STEP 4 respondeu à mesma pergunta de outra maneira

O STEP 4 utilizou um desenho particularmente útil.

Primeiramente, todos os participantes receberam semaglutida durante uma fase inicial.

Depois, aqueles que haviam chegado à fase de randomização foram divididos em dois grupos:

  • um continuou semaglutida;
  • outro passou para placebo.

Além disso, ambos continuaram recebendo intervenção de estilo de vida. [2]

Os dois grupos seguiram trajetórias opostas

Durante as primeiras 20 semanas de semaglutida, os participantes haviam perdido, em média, cerca de 10,6% do peso.

Depois da randomização, quem continuou o medicamento perdeu mais peso.

Por outro lado, quem mudou para placebo começou a recuperar.

Entre as semanas 20 e 68, a mudança média foi aproximadamente:

  • −7,9% com continuação da semaglutida;
  • +6,9% depois da mudança para placebo.

Por que esse desenho é importante?

Porque ele compara pessoas que inicialmente receberam o mesmo tratamento.

Portanto, a diferença posterior oferece evidência mais forte de que a continuidade da semaglutida contribuía para a manutenção do efeito.

Entretanto, novamente, isso não significa que todas as pessoas apresentaram a mesma trajetória.

Médias de ensaios não são previsões individuais.

E depois de interromper tirzepatida?

A tirzepatida possui um dos ensaios de retirada mais claros já realizados em farmacoterapia da obesidade: o SURMOUNT-4. [3]

Primeiramente, 783 participantes receberam tirzepatida durante 36 semanas.

Entre aqueles que chegaram à randomização, 670 foram divididos para:

  • continuar tirzepatida;
  • ou passar para placebo por mais 52 semanas.

Antes da retirada, o grupo havia perdido bastante peso

Durante as primeiras 36 semanas, a redução média foi de aproximadamente 20,9%.

Depois da randomização, as trajetórias se separaram de maneira marcante.

Quem continuou tirzepatida perdeu, em média, mais 5,5%.

Por outro lado, quem passou para placebo apresentou aumento médio de aproximadamente 14% a partir do peso da randomização.

A manutenção também foi muito diferente

Ao final do estudo, aproximadamente 89,5% das pessoas que continuaram tirzepatida mantiveram pelo menos 80% da redução inicial de peso.

Entre aquelas que passaram para placebo, essa proporção foi de aproximadamente 16,6%.

Portanto, o SURMOUNT-4 oferece forte evidência de que retirar tirzepatida após grande redução de peso favorece reganho em muitos participantes.

O reganho significa que todo benefício foi perdido?

Não necessariamente.

Esse é um detalhe importante.

Mesmo depois de recuperar parte do peso, algumas pessoas continuam abaixo do ponto inicial.

Além disso, a magnitude do reganho varia bastante.

Tabela 1 — O que os principais estudos observaram

EstudoTratamentoO que aconteceu após retirada
STEP 1 ExtensionSemaglutidaCerca de dois terços da redução anterior foram recuperados, em média, em um ano
STEP 4SemaglutidaGrupo transferido para placebo recuperou peso, enquanto continuação levou a perda adicional
SURMOUNT-4TirzepatidaRetirada produziu reganho substancial; continuação manteve e ampliou a perda
Análise SURMOUNT-4 de 2026TirzepatidaMaior reganho esteve associado a maior reversão de benefícios cardiometabólicos

Portanto, “reganho” não significa obrigatoriamente retorno completo ao ponto inicial.

Entretanto, também não deve ser tratado como fenômeno pequeno ou raro.

Uma análise de 2026 trouxe uma informação ainda mais importante

Pesquisadores voltaram aos dados do SURMOUNT-4 e analisaram não apenas quanto peso retornou, mas também o que aconteceu com outros marcadores de saúde. [4]

A análise incluiu 308 participantes que haviam perdido pelo menos 10% do peso inicialmente com tirzepatida e depois passaram para placebo.

A maioria recuperou pelo menos 25% do peso perdido

Os participantes foram separados conforme a proporção da redução original que recuperaram.

Quanto maior o reganho, maior foi a tendência de piora de diversos indicadores.

Entre eles estavam:

  • circunferência da cintura;
  • pressão arterial sistólica;
  • colesterol não HDL;
  • hemoglobina glicada;
  • insulina de jejum.

Portanto, a questão não é apenas estética

Durante o tratamento, redução de peso pode acompanhar melhora metabólica.

Entretanto, quando grande parte desse peso retorna, alguns desses benefícios também podem caminhar de volta em direção ao ponto anterior.

Isso reforça a ideia de obesidade como problema de saúde crônico.

Revisões de 2026 confirmam que esse padrão não aparece em apenas um ensaio

Em 2026, uma revisão sistemática e meta-regressão avaliou estudos sobre interrupção de agonistas de GLP-1.

Os pesquisadores encontraram um padrão consistente de recuperação de peso após a retirada. [5]

Aproximadamente 60% da redução retornou em um ano

No modelo baseado nos ensaios randomizados, aproximadamente 60% do peso perdido durante o tratamento havia sido recuperado um ano depois da interrupção.

Entretanto, os autores observaram diferenças relevantes entre estudos.

Além disso, projeções para períodos mais longos carregam maior incerteza.

Portanto, 60% não deve ser tratado como uma regra pessoal.

Outra revisão encontrou o mesmo problema

Uma meta-análise de 2026 que reuniu 17 estudos também encontrou reganho clinicamente relevante depois da interrupção de medicamentos para controle do peso. [6]

Entretanto, havia grande heterogeneidade entre estudos.

Por isso, comparar diretamente números de semaglutida e tirzepatida para dizer qual “faz voltar mais peso” seria inadequado.

Medicamentos que produzem perdas iniciais maiores também podem gerar maior quantidade absoluta de peso disponível para ser recuperada.

Por que o peso pode voltar?

A explicação mais importante é que o tratamento influencia mecanismos que regulam ingestão de energia e peso corporal.

Semaglutida e tirzepatida atuam em vias relacionadas a saciedade, fome e controle energético.

Quando o tratamento é retirado, esse efeito farmacológico diminui.

O apetite pode voltar a aumentar

Durante o tratamento, muitas pessoas relatam:

  • menos fome;
  • saciedade mais prolongada;
  • menor interesse por grandes quantidades de comida;
  • menor “ruído alimentar”.

Entretanto, esses efeitos não precisam permanecer com a mesma intensidade quando o medicamento deixa de atuar.

Consequentemente, manter a mesma ingestão pode se tornar biologicamente mais difícil.

O organismo também reage à perda de peso

Independentemente do método usado, perder peso pode desencadear adaptações.

Entre elas estão mudanças em:

  • sinais de fome;
  • saciedade;
  • gasto energético;
  • comportamento alimentar;
  • resposta cerebral a alimentos.

Portanto, o reganho não pode ser explicado apenas como “a pessoa voltou a comer errado”.

VALE A PENA SABER

O organismo não interpreta perda de peso como objetivo estético. Mecanismos biológicos podem favorecer recuperação de energia depois de grandes reduções de peso.

Isso significa dependência?

Não no sentido usado para substâncias que causam transtornos de dependência.

Essa comparação é enganosa.

Quando um medicamento é retirado e o problema que ele controlava reaparece, isso não significa automaticamente dependência química.

Um tratamento pode funcionar apenas enquanto está ativo

Isso acontece em várias condições crônicas.

Por exemplo, medicamentos para hipertensão podem controlar a pressão enquanto são utilizados.

Entretanto, retirar o tratamento não significa que a causa original deixou de existir.

Da mesma forma, medicamentos para obesidade podem controlar mecanismos envolvidos no peso enquanto permanecem em uso.

Obesidade possui tendência à recorrência

Uma revisão de 2026 sobre reganho após tratamentos da obesidade descreveu mecanismos biológicos persistentes que favorecem recuperação após redução de peso.

Entre eles estão alterações no gasto energético e em sinais que aumentam motivação para comer. [7]

Portanto, reganho deve ser entendido dentro da fisiologia da obesidade, e não como sinal de fraqueza ou “vício na caneta”.

Todo mundo recupera o mesmo peso?

Não.

Essa talvez seja uma das informações mais importantes para a leitora.

Ensaios apresentam médias e distribuições.

Dentro desses grupos existem pessoas que:

  • recuperam pouco;
  • recuperam uma parte moderada;
  • recuperam grande parte;
  • mantêm boa parte da redução.

Portanto, uma média de 60% ou dois terços não determina o que acontecerá com uma pessoa específica.

Tabela 2 — O que pode influenciar a trajetória após a interrupção?

FatorPor que pode importar
Quantidade de peso inicialmente perdidoPerdas maiores criam maior diferença em relação ao peso inicial
Duração do acompanhamentoO reganho continua sendo observado ao longo dos meses
Alimentação e atividadeInfluenciam balanço energético, mas não anulam toda adaptação biológica
Massa muscularPode influenciar função e gasto energético
SonoPode interferir em apetite e comportamento
Condições metabólicasDiabetes, resistência à insulina e outras condições alteram contexto
Medicamentos concomitantesAlguns favorecem ganho ou perda de peso
Menopausa e envelhecimentoPodem modificar composição corporal e ambiente metabólico
Variabilidade individualGenética, biologia e ambiente não são iguais entre pessoas

Nenhum desses fatores permite prever perfeitamente o reganho.

Profissional brasileira de saúde de meia-idade conversando com colegas em congresso científico.
Estudos de retirada ajudam pesquisadores a compreender por que manutenção e perda de peso são fases diferentes do tratamento.

E na menopausa: o peso volta mais?

Essa pergunta ainda não possui uma resposta sólida.

Mulheres aparecem em grande número nos ensaios de semaglutida e tirzepatida.

Entretanto, os principais estudos de retirada não foram desenhados especificamente para comparar mulheres pré, peri e pós-menopáusicas.

Portanto, não existe um percentual exclusivo da menopausa

Não seria correto afirmar, por exemplo:

“mulheres na menopausa recuperam X% a mais depois de parar”.

A evidência ainda não sustenta uma regra desse tipo.

Além disso, revisões de 2026 sobre obesidade na menopausa reconhecem a importância crescente das farmacoterapias modernas, mas também destacam lacunas de pesquisa específicas dessa fase da vida. [8]

Ainda assim, o contexto da menopausa importa

Durante a transição menopausal podem ocorrer:

  • redistribuição de gordura abdominal;
  • perda de massa magra;
  • problemas de sono;
  • sintomas que diminuem atividade;
  • mudanças metabólicas associadas ao envelhecimento.

Portanto, manutenção de peso nessa fase acontece dentro de um contexto fisiológico particular.

Entretanto, isso não significa que a menopausa torne o reganho inevitável.

Ozempic e Wegovy devem ser tratados separadamente neste assunto?

Sim.

Embora ambos contenham semaglutida, eles não são apenas “a mesma caneta com nomes diferentes” do ponto de vista regulatório.

No Brasil, Wegovy é especificamente indicado para controle do peso em populações elegíveis.

Ozempic, por outro lado, possui indicações relacionadas principalmente ao diabetes tipo 2 e complicações associadas.

Os estudos STEP usaram a estratégia de obesidade

Por isso, quando citamos o reganho observado no STEP 1 ou STEP 4, estamos discutindo evidência de semaglutida utilizada em ensaios para tratamento da obesidade.

Isso é especialmente importante porque muitas páginas na internet escrevem:

“estudo prova que o peso volta depois de parar Ozempic”.

Essa frase não é tecnicamente precisa.

Uma formulação melhor seria:

“estudos de semaglutida para obesidade mostram reganho depois da interrupção”.

Mounjaro também é indicado para manutenção do peso?

No Brasil, a indicação aprovada de Mounjaro para controle crônico do peso inclui tanto perda quanto manutenção do peso em adultos que atendem aos critérios definidos pela Anvisa.

Isso ajuda a entender por que o SURMOUNT-4 avaliou especificamente a continuidade.

“Controle crônico” é uma expressão importante

Ela muda a maneira de pensar sobre o tratamento.

O objetivo não é apenas produzir uma queda inicial na balança.

Além disso, pesquisadores querem entender se os resultados são mantidos ao longo do tempo.

O SURMOUNT-4 mostrou claramente que continuar tirzepatida produziu resultados muito diferentes de retirá-la.

Por isso, estudos modernos de obesidade estão cada vez mais interessados em manutenção, e não apenas em perda inicial.

Existe uma forma comprovada de interromper sem recuperar peso?

Até agora, não existe uma estratégia universal comprovada que garanta ausência de reganho.

Essa é uma área importante de pesquisa.

Algumas discussões científicas recentes investigam redução gradual, estratégias comportamentais intensivas, outras terapias e formas de manutenção.

Entretanto, os dados ainda não permitem oferecer uma fórmula padronizada para todas as pessoas.

Por isso, “desmame” não deve virar receita de internet

Interromper de forma abrupta ou gradual é uma decisão clínica.

Além disso, diabetes, risco cardiovascular, efeitos adversos e outros objetivos do tratamento podem modificar completamente essa decisão.

Portanto, este artigo não oferece esquema de redução, intervalo entre doses ou substituição.

Parar por conta própria também pode alterar outros objetivos terapêuticos

Especialmente no caso de medicamentos usados para diabetes, o efeito sobre glicemia também importa.

Assim, a discussão nunca deveria se limitar à balança.

O SURMOUNT-MAINTAIN acrescentou algo em 2026?

Sim.

Em 2026 foi publicado o SURMOUNT-MAINTAIN, outro ensaio randomizado dedicado à manutenção da redução de peso com tirzepatida. [9]

Esse tipo de estudo reforça uma mudança importante na pesquisa moderna:

manter a perda passou a ser um desfecho central do tratamento da obesidade.

Isso ocorre porque perda e manutenção são fases diferentes

Produzir redução inicial de peso não garante que os mesmos mecanismos serão suficientes para sustentá-la depois.

Além disso, adaptações biológicas podem continuar favorecendo recuperação.

Por isso, pesquisadores passaram a testar diferentes estratégias especificamente durante a fase de manutenção.

Esse movimento aproxima o tratamento da obesidade de outros modelos de cuidado de condições crônicas.

O reganho pode trazer de volta alterações metabólicas?

Sim, pelo menos em parte.

No STEP 1 Extension, vários benefícios cardiometabólicos observados durante o tratamento caminharam novamente em direção aos valores anteriores após a retirada e o reganho. [1]

Além disso, a análise de 2026 do SURMOUNT-4 encontrou relação entre maior recuperação de peso e maior reversão de determinadas melhoras cardiometabólicas. [4]

Isso não acontece de forma idêntica com todos os marcadores

Alguns benefícios podem persistir parcialmente.

Outros podem diminuir mais rapidamente.

Portanto, não seria correto afirmar que “todos os benefícios desaparecem imediatamente”.

Entretanto, também seria inadequado dizer que somente a balança muda.

Peso é um marcador, não o único objetivo

Pressão arterial, glicose, cintura e lipídios também entram na avaliação.

Por isso, a decisão de manter ou alterar um tratamento deve considerar o quadro completo.

Parar porque atingiu o “peso desejado” faz sentido científico?

A pergunta parece intuitiva:

“Se já cheguei ao peso que queria, por que continuar?”

Entretanto, os ensaios de retirada mostram justamente que atingir determinado peso não significa que os mecanismos envolvidos na obesidade desapareceram.

Meta atingida não significa doença resolvida

Uma pressão arterial controlada durante tratamento não significa necessariamente desaparecimento da hipertensão.

Da mesma forma, redução de peso durante farmacoterapia não demonstra automaticamente que a tendência biológica à recuperação foi eliminada.

Por isso, a manutenção se tornou parte essencial das pesquisas.

Entretanto, tratamento permanente não é uma regra automática para todos

Situações clínicas mudam.

Benefícios, riscos, efeitos adversos, acesso, custo e preferências também mudam.

Portanto, os estudos sustentam a ideia de planejamento de longo prazo, mas não autorizam afirmar que toda pessoa deverá utilizar o mesmo medicamento indefinidamente.

Por que dizer “o peso voltou porque a pessoa relaxou” é cientificamente fraco?

Porque ignora o desenho dos ensaios.

No STEP 4, por exemplo, participantes que foram transferidos para placebo continuaram dentro de um ensaio clínico e receberam intervenção de estilo de vida.

Ainda assim, houve reganho médio.

No SURMOUNT-4, retirar tirzepatida também levou a recuperação importante.

Portanto, os resultados não combinam com a explicação de que tudo depende apenas de disciplina.

Comportamento continua importante

Isso não significa que alimentação, movimento, sono e rotina sejam irrelevantes.

Pelo contrário, eles continuam participando do balanço energético.

Entretanto, comportamento acontece dentro de um organismo que também muda sinais de fome, saciedade e gasto energético.

Assim, biologia e comportamento não são explicações concorrentes.

Eles interagem.

Tratamento de Longo Prazo da Obesidade
Fotógrafa indígena brasileira trabalhando em festival cultural ao ar livre.

O que a ciência ainda não sabe?

Mesmo com vários estudos, perguntas importantes permanecem.

Ainda precisamos entender melhor:

  • quem consegue manter maior parte da perda sem o medicamento;
  • quais características predizem menor reganho;
  • qual estratégia de transição funciona melhor;
  • se redução gradual muda a trajetória;
  • como preservar massa muscular durante manutenção;
  • como diferentes padrões alimentares influenciam o resultado;
  • qual é o papel do exercício de força;
  • como o sono interfere;
  • quais resultados permanecem após vários anos;
  • se mulheres na menopausa apresentam trajetórias diferentes.

Além disso, estudos precisam considerar custo e acesso, porque tratamentos de longo prazo enfrentam barreiras reais no mundo cotidiano.

Conclusão: o peso pode voltar após Ozempic, Wegovy ou Mounjaro?

Sim. A melhor evidência disponível mostra que o reganho de peso é comum depois da interrupção de semaglutida ou tirzepatida utilizadas em estratégias de tratamento da obesidade.

Entretanto, isso não significa que todas as pessoas recuperem exatamente o mesmo peso.

Os grandes estudos contam uma história consistente

No STEP 1 Extension, aproximadamente dois terços da redução anterior de peso foram recuperados, em média, durante um ano sem semaglutida.

No STEP 4, participantes que passaram de semaglutida para placebo recuperaram peso, enquanto aqueles que continuaram perderam mais.

Da mesma forma, no SURMOUNT-4, retirar tirzepatida resultou em reganho substancial, enquanto continuar o medicamento manteve e ampliou a redução.

O reganho não representa fracasso pessoal

Esses resultados são compatíveis com a visão da obesidade como uma condição crônica e com tendência à recorrência.

Além disso, mecanismos biológicos podem favorecer aumento da fome e recuperação de energia após uma grande perda de peso.

Portanto, o problema não se resume à ideia de “falta de força de vontade”.

Ao mesmo tempo, nenhum estudo permite prometer que uma pessoa recuperará determinado percentual ou que precisará usar uma medicação para sempre.

Por fim, a principal mensagem é esta:

farmacoterapia da obesidade não deve ser planejada apenas até o momento de perder peso. A manutenção também precisa fazer parte da estratégia clínica desde o início.

PRINCIPAIS APRENDIZADOS

  • Primeiramente, reganho de peso após interrupção de semaglutida ou tirzepatida é comum nos estudos.
  • Entretanto, nem todas as pessoas recuperam o mesmo percentual.
  • No STEP 1 Extension, aproximadamente dois terços da redução anterior foram recuperados, em média, em um ano.
  • Além disso, muitos participantes ainda permaneciam abaixo do peso inicial.
  • No STEP 4, interromper semaglutida favoreceu reganho, enquanto continuar levou a redução adicional.
  • Da mesma forma, o SURMOUNT-4 mostrou reganho substancial após retirada de tirzepatida.
  • Quase 90% dos participantes que continuaram tirzepatida mantiveram pelo menos 80% da perda inicial no SURMOUNT-4.
  • Por outro lado, essa proporção foi muito menor entre aqueles transferidos para placebo.
  • Maior reganho pode acompanhar reversão de alguns benefícios cardiometabólicos.
  • Portanto, a questão vai além da estética.
  • Ozempic e Wegovy contêm semaglutida, mas possuem indicações regulatórias diferentes.
  • Os principais estudos de retirada de semaglutida para obesidade não são estudos específicos de “parar Ozempic”.
  • Além disso, Mounjaro contém tirzepatida e possui indicação de controle crônico do peso no Brasil para determinados adultos.
  • Reganho não significa dependência química.
  • Em vez disso, é compatível com a natureza crônica e recorrente da obesidade.
  • Não existe um percentual de reganho específico e bem estabelecido para mulheres na menopausa.
  • Ainda assim, menopausa, composição corporal, sono e envelhecimento podem influenciar o contexto de manutenção.
  • Não existe atualmente uma estratégia universal comprovada de interrupção que impeça o reganho.
  • Por isso, esquemas de “desmame” não devem ser transformados em receitas de internet.
  • Por fim, manutenção do peso precisa fazer parte do planejamento do tratamento, e não ser considerada apenas depois que a perda já aconteceu.

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FAQ — Perguntas Frequentes

1. O peso volta depois de parar Wegovy?

Pode voltar. No STEP 1 Extension, participantes recuperaram, em média, aproximadamente dois terços da redução anterior no primeiro ano sem semaglutida. Entretanto, houve grande variação individual.

2. O peso volta depois de parar Mounjaro?

Pode. No SURMOUNT-4, retirar tirzepatida após 36 semanas levou a reganho substancial durante o ano seguinte. Por outro lado, quem continuou o tratamento perdeu mais peso.

3. Parar Ozempic faz engordar?

Essa formulação precisa de cuidado. Ozempic contém semaglutida, mas os principais ensaios de retirada para obesidade utilizaram estratégias de semaglutida destinadas ao controle do peso. Assim, é mais correto dizer que estudos de semaglutida mostram reganho após interrupção.

4. Todo o peso perdido volta?

Não necessariamente. Alguns participantes recuperam muito, outros pouco. Além disso, no STEP 1, a média ainda permanecia abaixo do peso inicial depois de um ano sem tratamento.

5. Quanto tempo depois de interromper o peso começa a voltar?

Os ensaios mostram reganho ao longo dos meses seguintes. Entretanto, eles não definem um prazo individual exato, porque a trajetória varia entre pessoas.

6. O reganho significa que o medicamento causou dependência?

Não. Em vez disso, a retirada remove um tratamento que estava atuando sobre mecanismos relacionados a fome, saciedade e balanço energético. Isso não é equivalente a dependência química.

7. Fazer dieta e exercício impede o peso de voltar?

Eles continuam importantes, mas não oferecem garantia. No STEP 4, participantes transferidos para placebo continuaram recebendo intervenção de estilo de vida e, ainda assim, apresentaram reganho médio.

8. Mulheres na menopausa recuperam mais peso?

Ainda não existe evidência robusta que determine um percentual maior especificamente para mulheres na menopausa. Portanto, essa conclusão não deve ser feita com os dados atuais.

9. É melhor reduzir a dose aos poucos para não recuperar peso?

Não existe uma estratégia universal comprovada para garantir manutenção por meio de redução gradual. Além disso, decisões sobre dose e interrupção dependem da indicação e do contexto clínico.

10. Esses medicamentos precisam ser usados para sempre?

Os ensaios mostram que continuidade favorece manutenção, mas não estabelecem que toda pessoa deva usar o mesmo tratamento indefinidamente. Por isso, benefícios, riscos, efeitos adversos, custo, acesso e objetivos clínicos precisam ser reavaliados individualmente.

REFERÊNCIAS

Semaglutida e retirada

  • Wilding JPH, Batterham RL, Davies M, et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: The STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2022;24(8):1553–1564. PMID: 35441470. DOI: 10.1111/dom.14725.
  • Rubino D, Abrahamsson N, Davies M, et al. Effect of Continued Weekly Subcutaneous Semaglutide vs Placebo on Weight Loss Maintenance in Adults With Overweight or Obesity: The STEP 4 Randomized Clinical Trial. JAMA. 2021;325(14):1414–1425. PMID: 33755728. DOI: 10.1001/jama.2021.3224.

Tirzepatida e manutenção

  • Aronne LJ, Sattar N, Horn DB, et al. Continued Treatment With Tirzepatide for Maintenance of Weight Reduction in Adults With Obesity: The SURMOUNT-4 Randomized Clinical Trial. JAMA. 2024;331(1):38–48. PMID: 38078870. DOI: 10.1001/jama.2023.24945.
  • Horn DB, Linetzky B, Davies MJ, et al. Cardiometabolic Parameter Change by Weight Regain on Tirzepatide Withdrawal in Adults With Obesity: A Post Hoc Analysis of the SURMOUNT-4 Trial. JAMA Internal Medicine. 2026;186(2):157–167. PMID: 41284285. DOI: 10.1001/jamainternmed.2025.6112.
  • Horn DB, Aronne LJ, Wharton S, et al. Tirzepatide for maintenance of bodyweight reduction in people with obesity in the USA (SURMOUNT-MAINTAIN): a multicentre, double-blind, randomised, placebo-controlled trial. The Lancet. 2026;407(10545):2305–2318. PMID: 42119587. DOI: 10.1016/S0140-6736(26)00656-2.

Revisões sobre reganho

  • Budini B, Luo S, Tam M, et al. Trajectory of weight regain after cessation of GLP-1 receptor agonists: a systematic review and nonlinear meta-regression. EClinicalMedicine. 2026;93:103796. PMID: 41938838. DOI: 10.1016/j.eclinm.2026.103796.
  • Patel H, Babli SA, Shah S, et al. Post-cessation Weight Regain After Weight Management Medications: A Systematic Review and Meta-Analysis. 2026;18(6):e111786. PMID: 42534203. DOI: 10.7759/cureus.111786.
  • Tejera C, et al. Weight regain after obesity treatment: mechanisms, predictors, and real-world evidence from the IGOBE program. Reviews in Endocrine and Metabolic Disorders. 2026. PMID: 42547731. DOI: 10.1007/s11154-026-10070-5.

Menopausa e obesidade

  • Allen JT, Zahler-Miller C, Lough M, Titus H. Management of obesity in the menopause transition and postmenopausal period. 2026;22(5):496–506. PMID: 41826147. DOI: 10.1016/j.soard.2026.01.015.

Regulamentação brasileira

  • Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Anvisa. Wegovy (semaglutida): indicação para controle do peso em adultos elegíveis.
  • Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Anvisa. Mounjaro (tirzepatida): indicação para controle crônico do peso. 2025.
  • Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Anvisa. Ozempic (semaglutida): indicações relacionadas ao diabetes mellitus tipo 2.
  • Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Anvisa. Retenção de receita para medicamentos agonistas de GLP-1. Em vigor desde 23 de junho de 2025.

Fontes Confiáveis Para Continuar Pesquisando

Bases científicas e instituições

Brasil

Importante: essas instituições e bases são apresentadas como caminhos para aprofundamento da pesquisa. A inclusão nesta lista não significa que todas tenham sido utilizadas como fonte direta deste artigo. Os estudos e documentos efetivamente utilizados para sustentar o conteúdo estão identificados na seção Referências.

Aviso: O conteúdo deste blog é estritamente informativo e não substitui a consulta, diagnóstico ou tratamento médico e nutricional personalizado.

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